
Ao estabelecer uma diferenciação entre as obras da natureza e as obras humanas, o geógrafo Karl Ritter[1] demonstra o engano que a ilusão proveniente de observações superficiais e menos atentas podem nos trazer. Enquanto nas obras naturais, tais como uma montanha rochosa, um penhasco e uma árvore, a assimetria se aparenta como dada, na obras humanas, tais como um edifício, um automóvel ou um eletrodoméstico, é a simetria que se instaura ante a observação. Mas colocadas sob o auspício de um microscópio e da investigação cautelosa perceberíamos uma complexa e bela simetria geométrica na natureza, e uma assimetria desconcertante nas criações humanas. A identificação de Ritter nos serve ao entendimento do que a idéia de nação transmite quando da sua pronúncia e da sua inscrição e servindo-se de outra identificação, histórica e cultural, podemos desnudar a confusão por detrás da certeza.
Supondo que tal identificação fosse feita por um observador extragalático, após uma tragédia nuclear que acabasse com a espécie humana e não com os seus registros, encontrar-se-ia na obra NAÇÕES E NACIONALISMO desde 1780, do historiador Eric Hobsbawm, a trajetória do conceito de nação desde as fundações da modernidade até os fins do século XX. Nessa leitura encontrar-se-ia também a preponderância de tal conceito na história recente da humanidade, seu poder e sua capacidade imagética sobre populações de alguma forma agregadas. Na análise de Hobsbawm não se aponta uma definição pronta e acabada para a idéia das nações, o próprio autor não se propõe a tal exercício de fossilização, o coloca sob a luz da construção histórica, o entendendo como um fenômeno dual, construído essencialmente pelo alto, mas que, no entanto, não pode ser compreendido sem ser analisado de baixo, ou seja, em termos das suposições, esperanças, necessidades, aspirações e interesses das pessoas comuns, as quais não são necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas.
Sob esse ponto de vista compreendemos que as nações tal qual passamos a imaginar foram produtos, e não espontaneidades da cultura humana. É indissociável à construção das nações modernas a anterior existência e fortalecimento dos Estados modernos, e com eles os Estados-Nações. Se é verdade que para o desenvolvimento da economia capitalista liberal a fronteira das empresas particulares eram as únicas sonhadas no espaço global, é verdade também que a realidade é muito distinta dos anseios e a realização de projeções necessita de uma dose elevada de balanceamento e concretude. Assim a maior unificação e a maior padronização das relações culturais, materiais e da identidade humana foram impressas nas páginas da história com a formação dos Estados nacionais modernos. Mas esse Estado-Nação só pode existir, assim como a economia nacional, em bases concretas de historicidade e identidade.
A essa memória e laços coletivos anteriores, os quais foram apoderados pelas elites dirigentes dos estados, Hobsbawm dá o nome de “Protonacionais”: “A nação moderna é uma ‘comunidade imaginária’, na útil frase de Benedict Anderson, e não há dúvida de que pode preencher o vazio emocional causado pelo declínio ou desintegração, ou a inexistência de redes de relações ou comunidades humanas reais; mas o problema permanece na questão de por que as pessoas tendo perdido suas comunidades reais, desejam imaginar esse tipo particular de substituição. Uma das razões pode ser a de que, em muitas partes do mundo, os Estados e os movimentos nacionais podem mobilizar certas variantes do sentimento de vínculo coletivo já existente e podem operar potencialmente, dessa forma, na escala macropolítica que se ajustaria às nações e aos Estados modernos”.
Dessa feita elementos comuns à identidade nacional moderna passaram a ser entendidos como sinônimos de nacionalidade, os quais seriam etnicidade, língua e religião os principais na abordagem de Hobsbawm. Em variantes diferenciadas um ou outro elemento foi se afirmando dentro de cada território estatal e conjugando a identidade nacional da respectiva região. Alguns são emblemáticos, como o caso irlandês, onde a religião católica rege a questão nacional. O mais importante a ser dito sobre essas composições da nacionalidade moderna é que nenhuma delas se excluem, todas se entrecruzam e se estabelecem como componentes sociais da identidade nacional. E todas, principalmente a língua, são construtos estatais. Portanto, como exemplifica Hobsbawm, o discurso revolucionário socialista do internacionalismo não estava imunizado de seu conteúdo nacional, da mesma maneira os movimentos de massa de caráter nacional não deixavam de ter conteúdos sociais e proletarizantes. Seguindo o exercício do ponto de vista do autor, a visão e consciência dos homens e mulheres que compunham tais movimentações sociais não podiam ser delimitadas pelo conteúdo dos discursos e artigos dos líderes dos partidos e organizações que se intitulavam nacionais, religiosos, socialistas ou étnicos. A questão nacional se estabeleceu como o ponto x da evolução política.
A territorialidade é outro ponto importante na abordagem do autor. Desde a modernidade a questão da nação, ou melhor, do Estado-nação, passou a ser identificada com a questão de um território uno e homogêneo, segundo o conceito wilsoniano de nação, no qual o território nacional seria o território do Estado-nação, de uma única nação. Embora no decorrer da história a configuração político-territorial na Europa (foco do autor) pós Tratado de Versalhes tenha se estabelecido tal qual esse princípio wilsoniano, exemplos são muitos e significativos para demonstrar que essa era uma idéia totalizante e impraticável. “A idéia nacional, enquanto formulada por seus pregadores oficiais, não coincidia necessariamente com a real auto-identificação do povo em questão. Os plebiscitos organizados depois de 1918 em várias regiões de composição nacional mesclada, para decidir sobre a associação de seus habitantes a Estados-Nações, revelaram parcelas significativas daqueles que falavam uma língua e no entanto optaram por juntar-se ao Estado daqueles que falavam outra”. Barbaridades e genocídios, alguns bastante próximos do fim do século XX, têm em boa medida explicações na defesa de um principio territorial-nacional-estatal tal como definido no entre-guerras pelos países europeus. Mostra-se com essa observação a complexidade da questão nacional, de que ela, em sua ligação cultural e anterior à invenção do nacionalismo e da nação estatal, ainda precisa ser melhor interpretada e que os homens e mulheres que a compõe permutam laços muito mais tênues do que decretos ou acordos internacionais.
É interessante também a análise de Hobsbawm sobre as novas formas de expressão da identificação nacional no tocante ao período pós-1918. A comunicação de massas, o cinema o rádio e a tecnologia foram determinantes para difundir as ideologias populistas e nacionalistas de maneira padronizada e aptas a serem aproveitadas o quanto pudessem por interesses estatais e privados.
Foi na quebra da identificação entre o que era privado e local e no que era público e generalizante que a comunicação cumpriu um papel determinante na construção ou transferência de símbolos para dentro da vida de cada cidadão, em importância considerável e impactante.
O esporte teve uma presença destacada no preenchimento do espaço entre o público e o privado e na identidade nacional: “O que fez do esporte um meio único, em eficácia, para inculcar sentimentos nacionalistas, de todo modo só para homens, foi a facilidade com que até mesmo os menores indivíduos políticos ou públicos podiam se identificar com a nação, simbolizada por jovens que se destacavam no que praticamente todo homem quer, ou mais uma vez na vida terá querido: ser bom naquilo que faz. A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo de sua nação”. O espectro da nação, longe de ser um fantasma assustador, toma corpo e palpabilidade na expressão daquilo que pode ter impressão individual, sendo como é o indivíduo o ator mais enobrecido na era moderna.
Se antes era a questão da nação o “guarda-chuva” que permeabilizava todas as outras questões sociais e econômicas, ela não mais se encontra nessa posição na atualidade. “Embora não se possa negar o impacto crescente e, por vezes dramático, da política nacionalista ou étnica, existe um aspecto principal pelo qual o fenômeno, hoje, é funcionalmente diferente do nacionalismo e das nações da história do século XIX e início do século XX. Já não se apresenta como o principal vetor do desenvolvimento histórico”.
A perda das funções econômicas e políticas da nação, principalmente no tocante em sua ligação com o Estado, enquanto aparelho político-ideológico cada vez mais poderoso, são os pontos críticos para a observação de Eric Hobsbawm sobre a perda de relevância nacional.
No entanto não é simples conseguir perceber a simetria do que diz Hobsbawm em seu capítulo conclusivo com o que se vê ao real redor. A insurgência crescente de movimentos étnicos separatistas pode até mascarar o que diz o autor, mas sua natureza negativa ao Estado-nação não. Como também não a idéia de que qualquer que seja a representação política se está a tratar de uma nação e um Estado conjuntamente e de que todas as entidades políticas mundiais seriam nações estatais. Como bem diz o próprio autor, a ilusão semântica da palavra e toda a névoa de imprecisão que carrega escondem a crise do conceito. Parecem ser a nação e o nacionalismo mais onipresentes do que realmente o são.
O microscópio de Eric Hobsbawm foi tenaz o suficiente para entender que não somos o que somos sem sermos antes ingleses, brasileiros ou venezuelanos. Não somos se não presenças da vitória da nacionalidade moderna na história recente do homem. O microscópio do historiador verificou também as assimetrias ideológicas dessa idéia num tempo de desconstruções e poucos horizontes.
Talvez a naturalidade com que encaramos a degradação humana não seja tão desconexa assim da perda de identidade que a tal “aldeia global” insiste em trazer, pois se somos agora membros de uma única “tribo planetária” deveríamos comungar da mesma prosperidade e das mesmas inovações que apenas alguns lugares da terra dispõem. Para Hobsbawm esta peleja não se decide mais no debate nacional. Para os neoliberais tal embate na verdade inexiste já que o estado é quem o cria e deve ser eliminado. Para nós urge ao menos a identificação cultural enquanto espécie humana, para que nos salvemos, para que existamos.
[1] La oranaizacion del espacio en la superficie del globo y su function en el desarrollo historico, 1850.